terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

DIA DO PENSAMENTO ESCOTEIRO


BADEN POWELL E LADY B.-P.  
 
Na verdade, algumas pessoas no Brasil transformaram a data no "Dia do Fundador". No resto do mundo, inclusive por muitos brasileiros, se celebra o "Dia do Pensamento Escoteiro", não só em homenagem ao fundador do Escotismo, como também em homenagem a sua esposa, co-fundadora e Chefe Mundial das Girl Guides ou "Bandeirantes".

Casou-se com B.-P. em 1912, com 23 anos de idade (ele tinha 55). Mulher de caráter reto foi fiel companheira de B.-P. e de seus ideais, acompanhando-lhe não só em vida, mas divulgando o Escotismo mesmo após a morte do fundador. Em uma de suas viagens de divulgação, em 1959, visitou o Brasil.

Lady B.-P., como ficou conhecida, era multi-talentosa, como o próprio fundador: gostava de música e tocava violão razoavelmente; praticava esportes tal como tênis, remo e patinação, além de montar a cavalo e bicicleta. Apesar de ser de uma classe social favorecida, preocupava-se com os mais necessitados e participava de eventos de caridade.

Com B.-P. teve 3 filhos, além dos milhões de escoteiros e escoteiras.

A exemplo de B.-P., Olave também deixou uma última mensagem, menos difundida que a de nosso fundador, mas que merece a pena ser lida:

MENSAGEM DE LADY OLAVE BADEN-POWELL

"Caros Bandeirantes, Escoteiros, Lobinhos, Fadas e seus Coordenadores e Amigos. Terei deixado o mundo quando receberam esta mensagem que é a expressão de meus agradecimentos pela bondade e afeição com que sempre me trataram. Quero também dizer o quanto me alegro pela maneira com que todos sempre executaram suas tarefas no Movimento que meu amado marido imaginou, para o bem de rapazes e moças de todos os países, há muitos anos. Creio firmemente em Deus Todo Poderoso e na vida no mundo que há de vir, quando ele e eu estaremos de novo juntos, e juntos velaremos pelos que pertencem a esta família mundial, continuando a nos interessar por seu progresso e bem-estar. Confio em que todos continuarão a utilizar totalmente o sistema de trabalho e brincadeira que nosso Movimento oferece, mantendo a alegria e as amizades feitas nas reuniões e nos acampamentos e cumprindo a Promessa e o Código que se comprometeram a viver quando entraram no Movimento. Dessa forma todos continuarão não só a progredir em corpo, inteligência e espírito, mas também influenciarão os que os cercam, fazendo o que é honesto, direito e sábio, pensando e agindo com bondade, de forma a combater todos os males e transformar o mundo numa moradia mais feliz. Espero que todos os seus empreendimentos sejam bem sucedidos. Que Deus esteja com vocês nos anos que hão de vir. NADA DE LUTO - Que tudo seja REGOZIJO e lembranças FELIZES e enorme satisfação por ter eu COMPLETADO minha vida. Minha PRECE foi atendida: Que Deus me dê TRABALHO até o fim de minha vida E VIDA para completar o meu trabalho. Passo-o agora aos outros."

Abaixo, texto retirado de http://www.westminster-abbey.org/our-history/people/robert--and--olave-baden-powell

Robert e Olave Baden-Powell

Robert & Olave Baden-Powell's memorial stone
No corredor sul da nave da Abadia de Westminster, contra a tela da capela de São Jorge, é uma pedra memorial a Lord e Lady Baden-Powell. Ambos estão enterrados no Quénia e cada um tinha uma cerimônia realizada na Abadia. O memorial foi inaugurado conjunta em 12 de fevereiro de 1981, na presença da princesa Margaret, e é pelo escultor Josef Wilhelm Soukop. Os sinalizadores de Escuteiros e Guias são colocados contra a tela. Este memorial de pedra substituiu uma anterior de Lord Baden-Powell, que foi revelado em 1947. Este tinha os emblemas dos Escoteiros e Guias da menina sobre ele com a inscrição "Em memória de Robert Baden-Powell, Chefe Escoteiro do Mundo 1857-1941". O memorial atual inclui cabeças medalhão de bronze com a inscrição:

Agradeça por Robert Baden-Powell 1857-1941 Chefe Escoteiro do Mundo OLAVE Baden-Powell, Chefe Mundial 1889-1977 Guia ".
Robert Stephenson Smyth Baden-Powell nasceu em Londres em 22 de fevereiro de 1857, filho do reverendo. H. G. Baden Powell, professor em Oxford. Foi educado em Tunbridge Wells em Kent e na Charterhouse School, onde ele se interessou pelas artes do Escutismo e woodcraft. Em 1869, sua mãe mudou o nome da família de Powell Baden-Powell. Ele serviu com o 13 º de Hussardos, na Índia 1876-1883 e deixando a Índia realizou um trabalho de reconhecimento secreto na África e participou da Guerra Zulu 1888. Ele também atuou em Malta e comandou o 5 Dragoon Guards. Em 1899 veio Mafeking, o episódio mais notável em sua brilhante carreira militar. Durante o cerco de 217 dias de Aids da cidade de Baden-Powell livro Escotismo foi publicado, atingindo um público amplo. Depois de Mafeking estava aliviado, ele passou a organizar a força policial Sul Africano e voltou para a Inglaterra como Inspector Geral de Cavalaria. Ele re-escreveu o seu livro e testou suas teorias de aferição em um acampamento na ilha de Brownsea, em Dorset. Logo, grupos de escoteiros estavam sendo formadas em todo o país. Robert foi nomeado cavaleiro em 1909 e em 1912 casou-se com Olave Soames. O primeiro Jamboree internacional foi realizado em Londres em 1920, onde Robert foi aclamado Escuteiro Chefe Mundial "e em 1929 foi criado Lord Baden-Powell de Gilwell. Em 1938, ele passou a viver no Quênia e é enterrado em Nyeri.
Olave St. Clair Soames nasceu em Derbyshire em 22 de Fevereiro de 1889 e conheceu Robert em um cruzeiro pelo Caribe. Eles se casaram em outubro de 1912 e teve três filhos. Em 1909, Robert fundou o movimento Girl Guide, assistido por sua irmã Agnes, e Olave foi ativa no ramo de Sussex e tornou-se Chefe Guia em 1918. Em 1930 ela se tornou Chefe Guia Mundial. Realizam-se excursões pelo mundo e muitos Olave foi nomeada Dama da Grande Cruz do Império Britânico em 1932 por seus serviços para o Girl Guides. Ela morreu em 25 de junho de 1977 e foi enterrado ao lado do marido.
Uma fotografia do memorial pode ser comprado de Westminster Abbey Library.
Leitura complementar:
Oxford Dictionary of National Biography 2004.

Assim,
celebremos hoje a memória e os ideais de nossos fundadores: Lord e Lady Baden-Powell of Giwell.

terça-feira, 30 de março de 2010

A Canção do Albatroz

    Em 1901, Máximo Gorki escreveu este belo poema sentindo o tempo que vivia e do qual se avizinhava poderosa tempestade revolucionária na Rússia heróica de seu tempo. A palavra albatroz (burieviestnik) em russo pode ser traduzida como mensageiro (viéstnik) da tempestade (buria), por ser ele o único animal que sai alegremente a voar e sente-se perfeitamente à vontade em meio a qualquer tormenta. A mensagem é clara: no meio do caos, não devemos temer as tempestades, mas voar com elas e contribuir para que elas transformem efetivamente o mundo!

    Quando verti este poema para o português anos atrás, a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas estava em seus estertores. Convém lembrar que o poema foi escrito às vésperas de um tempo de sonho, sonho do qual se precisou acordar...

"Sobre a superfície cinzenta do mar,

O vento reúne

Pesadas nuvens.

Semelhante a um raio negro,

Entre as nuvens e o mar,

Paira orgulhoso o albatroz,

Mensageiro da tempestade.

E ora são as asas tocando as ondas,

Ora é uma flecha rasgando as nuvens,

Ele grita.

E as nuvens escutam a alegria

No ousado grito do pássaro.

Nesse grito - sede de tempestade!

Nesse grito - as nuvens escutam a fúria,

A chama da paixão,

A confiança na Vitória.

As gaivotas gemem diante da tempestade,

Gemem e lançam-se ao mar,

Para lá no fundo esconderem

O pavor da tempestade.

E os mergulhões também gemem.

A eles, mergulhões,

É inacessível a delícia da luta pela vida:

O barulho do trovão os amedronta...

O tolo pingüim, timidamente

Esconde seu corpo obeso entre as rochas...

Apenas o orgulhoso albatroz voa,

Ousado e livre sobre a espuma cinzenta do mar.

Tonitroa o trovão.

As ondas gemem na espuma da fúria.

E discutem com o vento.

Eis que o vento

Abraça uma porção de ondas

Com força e lança-as

Com maldade selvagem nas rochas,

Espalhando-as como a poeira,

Respingando uma noite de esmeraldas.

O albatroz paira a gritar

Como um raio negro,

Rompendo as nuvens como uma flecha,

Levantando espuma com suas asas.

Ei-lo voando rápido como um demônio;

Orgulhoso e negro demônio da tempestade;

Ri das nuvens, soluça de alegria!

Ele - sensível demônio -

Há muito vem escutando

Cansaço na fúria do trovão.

Tem certeza de que as nuvens não escondem,

Não, não escondem...

Uiva o vento... Ribomba o trovão...

Sobre o abismo do mar,

Um monte de nuvens pesadas

Brilham como centelhas.

O mar pega as flechas de relâmpagos

E as apaga em sua voragem.

Parecem cobras de fogo.

Os reflexos desses raios,

Rastejando sobre o mar e desaparecendo.

_ Tempestade!

Breve rebentará a tempestade!

Esse corajoso albatroz

Paira altivo entre os raios

E sobre o mar furiosamente urrando

Então grita o profeta da Vitória:

QUE MAIS FORTE ARREBENTE A TEMPESTADE!"

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Reflexão - Brasil

Autor desconhecido

R E F LE X Ã O


"Certa noite, ao entrar em minha sala de aula, vi num mapa-mundi, o nosso Brasil chorar:

O que houve meu Brasil brasileiro? perguntei-lhe!

E ele, espreguiçando-se em seu berço esplêndido, esparramado e verdejante sobre a América do Sul, respondeu chorando, com suas lágrimas amazônicas:

Estou sofrendo...

Vejam o que estão fazendo comigo....

Antes, os meus bosques tinham mais flores e meus seios mais amores...

Meu povo era heróico e os seus brados retumbantes.

O sol da liberdade era mais fúlgido e brilhava no céu a todo instante...

Onde anda a liberdade, onde estão os braços fortes?

Eu era a Pátria amada, idolatrada...

Havia paz no futuro e glórias no passado...

Nenhum filho meu fugia à luta...

Eu era a terra adorada e dos filhos deste solo era a mãe gentil...

Eu era gigante pela própria natureza, que hoje devastam e queimam, sem nenhum homem de coragem que às margens plácidas de algum riachinho, tenha a coragem de gritar mais alto

para libertar-me desses novos tiranos que ousam roubar o verde louro de minha flâmula...

Eu, não suportando as chorosas queixas do Brasil, fui para o jardim.

Era noite e pude ver a imagem do Cruzeiro que resplandece no lábaro que o nosso país ostenta estrelado

Pensei...

Conseguiremos salvar esse país sem braços fortes?

Pensei mais...

Quem nos devolverá a grandeza que a Pátria nos traz?

Voltei à sala, mas encontrei o mapa silencioso e mudo como uma criança dormindo em seu berço esplêndido....”

A cultura e as diferenças – como vive cada um

Por Leila Wilm



    “Se oferecêssemos aos homens a escolha de todos os costumes do mundo, aqueles que lhe parecessem melhor, eles examinariam a totalidade e acabariam preferindo os seus próprios costumes, tão convencidos estão de que estes são melhores do que todos os outros”. (Heródoto, 484-424 a.C.)

    Cada pedaço de chão desta Terra, desde que habitado por homens, traz sua herança cultural e segue costumes e hábitos de seus antepassados. Atos considerados estranhos para uns, inadmissíveis para outros, podem ser absolutamente normais e corriqueiros, especialmente para aqueles que os praticam.

    Os primeiros “viajantes-pensadores”, ao conhecer povos diferentes entre si, já tentavam explicar disparidades comportamentais existentes entre os homens, e alguns até afirmavam que essas diferenças davam-se devido ao clima das regiões. Povos habitantes de regiões mais frias eram considerados sisudos e temperamentais, enquanto os habitantes dos trópicos seriam mais extrovertidos e vivazes.

    Com o passar do tempo, e tendo-se conhecido outros povos, foram surgindo diversos parâmetros. Os homens, apesar de possuirem suas características individuais, reúnem-se em tribos, clãs e sociedades, os quais possuem características próprias, desenvolvidas pelo homem, devido à convivência, ou seja, o grupo é o que o homem é.

    Criou-se uma série de teorias que rotulam e estigmatizam as raças, grupos, clãs, etc., atribuindo-lhes predicados e/ou limitações, a ponto de discriminar pessoas e povos inteiros, como afirmar que judeus são avarentos, portugueses são pouco inteligentes, brasileiros são preguiçosos e por aí afora. São marcas que, mesmo tendo sido apagadas de forma individual (nesse ou naquele sujeito que se destaca mundialmente, provando o contrário), não conseguem deixar de existir, uma vez que se estenderam de forma global.

    Porém, os aspectos culturais de cada povo vão sendo mantidos, a despeito de algumas mudanças e evoluções, principalmente na área tecnológica.

    Os antropólogos há muito já afirmam que as diferenças genéticas – variação no genoma humano organizada em regiões do DNA conhecidas como haplótipos, blocos de informação transmitidos de geração em geração-  nada têm a ver com as diferenças culturais. Um exemplo disso é que atividades praticadas por mulheres em uma cultura podem ser atribuídas aos homens em outra, como afirma Roque de Barros Laraia (1986). Laraia cita o estudo de Margareth Mead (1971), onde comenta que até a amamentação pode ser transferida ao homem moderno, por meio da mamadeira.

    Laraia afirma ainda que um menino e uma menina agem diferentemente não em função de seus hormônios, mas em decorrência de uma educação diferenciada.

    A discussão acerca das diferenças dos seres humanos em decorrência de sua cultura, transforma-se em um assunto amplo e repleto de teses, experiências e comprovações. Porém, é fato que as diferenças existem, independentemente de seus fatores preponderantes; e devem ser levadas em consideração em cada uma de suas particularidades.

    Ao iniciar-se um atendimento na área de saúde, é rotina realizar-se a anamnese (do grego ana, trazer de novo e mnesis, memória), ou seja, uma entrevista que busca obter o maior número de informações possíveis sobre o indivíduo, buscando em sua memória detalhes de sua vida, em diversos aspectos. Em caso de tratamento médico, por exemplo, estima-se que hoje a anamnese, se bem conduzida, é responsável por 85% do diagnóstico na clínica médica, liberando 10% para o exame clínico(físico) e apenas 5% para exames laboratoriais ou complementares. A pesquisa individual busca informações não só da queixa principal do paciente e do histórico de doenças na família, como outros aspectos, inclusive acerca da história familiar, história pessoal e social.
A realização da anamnese é uma eficiente estratégia para se conhecer um indivíduo, inclusive em sua subjetividade, com a ajuda de questionamentos direcionados , isto é, fazendo-se “perguntas abertas”, “perguntas focadas” e “perguntas fechadas”. As perguntas abertas são aquelas mais generalizadas, as fechadas são sobre um assunto específico, e as perguntas fechadas são mais diretas, para se coletar dados que não foram captados através das anteriores.
Através desse estudo, inicia-se o conhecimento do sujeito com quem estamos lidando, porque idar com o indivíduo sem antes conhecê-lo e à sua cultura, hábitos, costumes, atitudes, tradição, etc.,  é impossível. Esse conhecimento, ao longo de um tratamento, deverá expandir-se consideravelmente, tornando-o cada vez mais eficaz.

Para que se ofereça qualquer tipo de atenção, é necessário saber quem é aquele sujeito, e investigar sua condição humana, uma vez que, segundo Hannah Arendt (2001), a condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada ao homem. Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em contato torna-se imediatamente uma condição de existência.
   
    Se o indivíduo é condicionado, é primordial levar em conta todos os fatores que o cercam e que sobre ele possam ter agido, ou estar agindo, de forma a influenciar seu modo de ser, agir e pensar.

    Os atos praticados, o discursos, os projetos e desejos (ou a ausência destes), são frutos do meio, costumes e hábitos individuais e coletivos. As conseqüências decorridas desse contexto, também resultarão da influência sofrida pelo meio.

    O indivíduo presente em uma sociedade trará suas marcas e seguirá seus caminhos. Como ser livre, poderá fazer escolhas, mas suas escolhas também estarão sendo influenciadas pela sua cultura.

    Assim, em uma mesma sociedade, sempre haverá o “certo” e o “errado”, segundo o julgamento dos indivíduos dela própria, e o homem, muitas vezes sem se dar conta de que só ele poderá um dia mudar aquilo que foi criado por ele mesmo, poderá seguir por trilhas que lhe parecem extremamente prejudiciais, mas que ainda assim serão seguidas, uma vez que estão ali, daquele mesmo jeito, há tanto tempo.

    O ser humano muitas vezes perde a fé e a esperança em sua própria espécie, por acreditar que as coisas têm que ser desse modo, porque desse modo sempre foram.

    E, após os homens terem feito as suas próprias escolhas dentro de uma mesma sociedade, surgem as diferenças entre eles em seu próprio meio, transformando-os em “melhores” e “piores”, segundo a sua própria sentença.

    Segundo Montaigne (1533-1572), cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra. Um exemplo disso são os sacrifícios até hoje praticados na Índia, onde, quando pequenas oferendas ao Rio Ganges, como animais e comida não “resolvem” um problema, oferece-se uma criança. Nos templos, aos deuses, os sacrifícios com morte são praticados com carneiros ao invés de pessoas, mas seres humanos ainda são oferecidos como escravos.

    Assim, o olhar do homem sobre o homem deve ser sempre sob o prisma cultural do indivíduo observado, despindo-se o observador de sua própria, respeitando-se as particularidades e as diferenças, pois só assim poderá haver um pouco mais de compreensão entre os homens.

    Despir-se de sua própria cultura não significa aqui abrir mão de tudo o que foi apreendido na vida em prol de outrem, e sim colocar-se em posição de empatia com este. “Empatia” origina-se do termo grego empátheia, que significa entrar no sentimento. Portanto, a primeira condição para sermos empáticos é sermos receptivos aos outros. Isto significa estar disposto a conhecer tanto os outros como a si mesmo. A empatia ajuda-nos a libertarmo-nos dos nossos padrões rígidos e repetitivos (culturais), pois só assim poderemos compreender melhor o outro indivíduo, com todas as suas particularidades,  subjetividade e idiossincrasia.

   



BIBLIOGRAFIA

•    LARAIA, Roque de Barros – Cultura: um conceito antropológico. 11ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997
•    PRADO, Luiz Carlos – O SER TERAPEUTA, Gráfica UFRGS, 2002
•    ARENDT, Hannah – A CONDIÇÃO HUMANA, Ed. Forense Universitária, 10ª ed., 2001
•    Wikipedia



O QUE É O SUPÉRFLUO?

Por Carlos Llano Cifuentes
(baseado em ACEPRENSA, 117/91)

Ainda que ninguém proponha o consumismo como doutrina, é o estilo de vida que mais influencia. Não há outro ismo que conte com menos ideólogos e mais adeptos, satisfeitos ou frustados. No entanto, poucos reconhecerão ter incorrido nesta hipertrofia do consumo. Para o autor deste artigo1, o primeiro passo para superar a tentação consumista é saber o que é o supérfluo em cada caso e como ele afeta o ser profundo do homem.

A antropologia filosófica afirma genericamente, desde a remota antigüidade, a existência de necessidades naturais (aquelas que o homem requer como tal) e necessidades acrescentadas (isto é, supérfluas), que o homem imagina necessitar, mas com uma necessidade fingida. Isto é o que se denomina por criar necessidades.

Movidos hoje decisivamente pelo impulso de satisfazer tais necessidades acrescentadas, inclusive com atrofia da satisfação das necessidades que nos são naturais, torna-se imperioso contar com uma pedra de toque para distinguir umas das outras.

UM GREGO, UM MEDIEVAL E MARX

Muitos pensadores de todos os tempos trataram de estabelecer a distinção entre os bens necessários e os bens supérfluos e fazer uma lista rigorosa dos primeiros, ainda que de uma forma pouco feliz. Tive a curiosidade de anotar as listas elaboradas por três filósofos de muito distintas épocas, origens e orientações: o grego Platão, o medieval Tomás de Aquino e o alemão Karl Marx.
Platão, em sua República (livro II), se propõe uma relação de bens necessários rigorosamente restritiva, e consegue esta sucinta enumeração: alimentação, habitação e vestuário. Mas, poucas linhas depois, arrepende-se das suas restrições e acrescenta uma quarta necessidade - a do calçado -, ao parecer esquecida, e a partir daí se vê impelido a acrescentar muitas outras.
Antonio Millán-Puelles, na sua Economía y Libertad diz-nos que a lista mais completa enunciada por Marx acerca das necessidades básicas do homem é a que se encontra no primeiro tomo de O Capital, da seguinte maneira: alimento, habitação, vestuário - no que coincide com a enumeração platônica -, aquecimento, etc. Com o seu bom humor andaluz, diz-nos Millán-Puelles que o leitor estranhará de imediato os elementos da lista: a calefação e o etc. Quando se trata, com efeito, de definir o necessário, não se pode deixar indeterminação em pontos suspensivos, porque estes abrem a porta ao supérfluo.
Pois bem: é curioso notar que a enumeração de Tomás de Aquino acerca dos bens necessários se identifica com a de Marx, até no etcétera, com duas peculiares ressalvas: a falta de calefação (era napolitano, não alemão) e em troca menciona, como um clarividente precursor do futuro, os veículos: a sua obesidade exigia, ao que parece, um burro.

QUANDO O SUPÉRFLUO SE GENERALIZA

Vê-se claramente que toda a relação de bens necessários se encontra tingida pelo subjetivismo: as irregulares ruas da antiga Grécia fazem pensar a Platão no calçado, como o frio da Alemanha do século XIX
1 Tradução do original Aceprensa 117/91
Carlos Llano Cifuentes é Reitor da Universidade Panamericana (México) e presidente do Conselho Superior do Instituto Panamericano de Alta Direção de Empresa (IPADE). O seu artigo apareceu originalmente na revista Istmo, n° 194.

incita Marx a acolher-se à lareira, e o seu próprio volume sugere a São Tomás o requerimento de um burro para deslocar-se.
Tampouco é válido considerar como necessários aqueles bens que se tenham generalizado em uma determinada etapa social. A generalização não os torna imprescindíveis; nem sequer convenientes. Basta ter em conta que em muitas sociedades, e na nossa também, chegaram a generalizar-se determinados vícios. Com razão, ainda que com certa agressividade, comentando o terceiro livro da Ética de Aristóteles, dizia Tomás de Aquino que não é por ter-se generalizado que o supérfluo adquire selo de autenticidade, como quando a generalização fosse feita por uma multitudo stultorum, que se teria que traduzir como bando de estúpidos.
A informática exacerbou em nós a atenção às estatísticas: para muitos, encontrar-se abaixo da média seria como contrair uma doença ou ser vítima de uma desgraça. Esta é, sem parecê-lo, uma das origens do consumismo: termina-se instalando uma antena parabólica pela única razão de que todos os vizinhos já a instalaram.
Igualmente, deve-se rechaçar a consideração de que o artificial torna-se por isso supérfluo. Há um modo artificial de satisfazer necessidades naturais, que se deve ao engenho do homem e que se constitui como parte importante das grandes civilizações. O mesmo Tomás de Aquino, que investe contra a generalização como critério de necessidade, diz-nos que a sociabilidade da cidade deriva de que com ela, vivendo agrupados, se alcançam artifícios benéficos que quem vivesse isolado nunca poderia encontrar.

O SEGREDO DE ARISTÓTELES

Que é, então, o que distingue o necessário do supérfluo? Antes de responder a esta questão, devemos fazer uma advertência e estabelecer uma hipótese. Advertimos que, na realidade, nos bens humanos não se estabelece uma divisão bipartida - necessários e supér-fluos - mas sim quádrupla: necessários, convenientes, supérfluos e nocivos. E a hipótese que me aventuro a propor é a de que os bens convenientes têm a tendência de tornar-se necessários e que os bens supérfluos tendem por fim a ser nocivos.
À luz do que foi dito já poderemos concluir que o necessário (e conveniente) não pode distinguir-se do supérfluo (e nocivo) mediante fórmulas gerais, sem fazer referência direta à pessoa que usa esses bens. A mesma droga que prejudica um morfinomaníaco beneficia um doente. Os bens são necessários (e convenientes) ou supérfluos (e nocivos) pela repercussão que têm em cada indivíduo que os possui, os usa ou os aproveita; quer dizer, pelos efeitos que produzem nele.
Aristóteles oferece-nos no primeiro livro da Ética a Nicómaco, um critério que poderia ter-se esquecido (hoje somos vítimas desse esquecimento) mas não superado: são bens necessários (e convenientes) aqueles que tornam exeqüível ao homem o exercício da virtude. Se este critério caiu no esquecimento, deve-se a que a palavra virtude perdeu a sua força, o qual constitui um dos paradoxos mais graves da nossa linguagem, pois o termo virtude significa isso mesmo que perdeu: força. O homem virtuoso é o que possui com força, com consistência, com nervo, aquilo mesmo que é ser homem, e o homem se define pelo seu espírito. Aristóteles identifica a virtude - ser mais homem - com a felicidade: “Chamamos felicidade ao desenvolvimento ou expansão da atividade do espírito”. Por isso mesmo os gregos não tinham mais do que uma palavra (areté) para expressar a virtude e o êxito: o êxito do homem consistia em sê-lo na máxima medida possível.
Serão bens necessários (e convenientes), pois, aqueles que ampliam a nossa capacidade de ser homem, no que consiste a felicidade que se pode alcançar nesta vida. Hoje, a voz ilustre de João Paulo II disse-o na Sollicitudo rei socialis: “os verdadeiros bens são os que abrem horizontes ao homem”.

SOBRIEDADE E VIRTUDE

O cristianismo sublinha e potencia o que a mente pagã de Aristóteles vislumbrara na sua Ética. Cada um saberá - é melhor que o saiba - se os bens que possui facilitam ou estorvam o crescimento do seu próprio ser homem, e conhecerá então qual é a linha que separa os bens que tem e utiliza como necessários ou como supérfluos; os que clareiam o seu panorama vital ou o enturvam.
Mas a sabedoria grega deu mais um passo: a carência de bens, o prescindir do supérfluo, contribui à virtude. Isto, que não é inteligível agora, já que a escassez nos parece intrinsecamente má, entendiam-no muito bem aqueles que constituem uma boa parte do nosso mais valioso patrimônio cultural. Assim o lemos em Heródoto: “A Grécia foi em todos os tempos um país pobre. Mas nisso se fundamenta a sua virtude. Chega a ela mediante o engenho e submissão a uma severa lei. Mediante ela se defende a Grécia da pobreza e da servidão”. Paradoxo hoje certamente ininteligível!: a pobreza gera em nós a força, e a força - não a abundância - nos defende da pobreza.

Fica todavia um ponto em suspenso. Muitos aceitarão com facilidade que os bens convenientes se nos transformem em necessários. Mas é muito possível que tenha obtido a repulsa de todos quando aventurei a hipótese de que os bens supérfluos têm a tendência de converterem-se em nocivos. Em que posso basear esta hipótese?

A ANGÚSTIA CONSUMISTA

Já o próprio conceito implica um fator pejorativo: supérfluo é o que sobra, o inútil, o que não é preciso ter. Este fator negativo implica de per si algo prejudicial: pois não é razoável - e portanto é irracional - ter o que sobra, conservar o que é inútil.
Mas esta consideração, obtida analiticamente do mesmo conceito do supérfluo, torna-se demasiado abstrata, e deveria por isso ser empiricamente constatada. Para isto, devemos distinguir entre superfluidade e riqueza; porque se bem que o supérfluo tenha um matiz claramente negativo, a riqueza possui um claramente positivo. As riquezas, inclusive materiais, podem servir sem dúvida de apoio instrumental à virtude: quem é bom, fará mais bem se tem recursos para fazê-lo. Mas, igualmente, as riquezas podem ser um estorvo que estreite o espírito humano, “na medida em que pela inquietude que geram, se impede a paz da alma”, disse com aguda expressão Tomás de Aquino. Há, pois, uma riqueza que serve para ampliar o raio de ação da virtude, e uma riqueza que a perturba. Hoje em dia está à flor da pele social esta inquietude que rompe o sossego da alma. Não se trata de uma afirmação anacrônica. Octavio Paz, na sua Pequena crônica de grandes dias diz-nos que “a tristeza e a angústia dos europeus e dos norte-americanos não vem da falta de comida mas sim da abundância de bens”.
A avareza, enquanto afã, angústia ou desejo enfermiço de acumulação de riquezas, transformou-se no afã, angústia ou desejo enfermiço do seu uso, substituindo uns bens por outros supostamente melhores, numa corrida atropelada que contraria a serenidade do espírito; mais ainda: que volta o espírito para fora na sua acelerada substituição. A hipótese diria que os bens que são de per si instrumento do espírito, se convertem naqueles que sobram quando semeiam a inquietude da sua acumulação ou da sua contínua substituição progressiva.

RIQUEZA GERADORA DE POBREZA

Mas, não é apenas a inquietude de espírito que gera em nós os bens supérfluos. Platão, no oitavo livro da República, adverte-nos que o excesso de bens materiais gera a decadência da alma. E dois mil quatrocentos anos depois, Mariano Grandona assegura-nos que “a prosperidade tornou-nos brandos”. É o que Daniel Bell chamou certeiramente “o beco sem saída” do Ocidente: o trabalho disciplinado e duro produziu uma prosperidade que nos impede já de seguir trabalhando, de modo que a prosperidade pode terminar em miséria. Pois se a virtude é força, fibra, vigor, e se os bens supérfluos não só nos inquietam, como também nos amolecem, atentarão nocivamente contra a vida interna do homem.
Então, o reter para si o supérfluo é uma opção grave: optar pela primazia das coisas que sobram, em detrimento das pessoas que as necessitam. Poderíamos concluir que o supérfluo de uns torna-se prejudicial ou nocivo àqueles que carecem do que, a outros, seus vizinhos, seus coetâneos, lhes está sobrando. Mas a conclusão ficaria incompleta. Porque, quem retém para si o supérfluo não prejudica somente a quem carece do necessário; prejudica-se sobretudo a si mesmo, já que impede o exercício da solidariedade, que é a virtude mais profundamente humana: o ser insolidário torna-se nocivo, já que longe de abrir o horizonte do homem, encerra-o em si mesmo e o empequenece. Talvez seja este o sentido que João Paulo II tenha querido dar em Durango (MÉXICO) à “riqueza geradora de pobreza”; pobreza material nos demais, mas também pobreza espiritual em si mesmo, enquanto homem.








































quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Fogo de Conselho

            Enio Alves Canaveaut



O lugar era um achado

A Tropa tinha acampado

Num capão feito a capricho

No ar um cheiro de bicho

Perfumava a natureza

E o Chefe tinha certeza

De ter um lugar ameno

Porque o laguito sereno

Supria água mui boa

E ali, no más, a lagoa

Também servia pro banho

Mas o que era mais estranho

Era a clareira fincada

Tão descoberta e espaçada

No meio da mataria

Qual um templo que se erguia

Tendo o céu por coberta

A tropa toda se aperta

Num traje grosso de guerra

E no velho Chefe se encerra

Num pensamento profundo

Demonstrar a esse mundo

Que existe algo mais nobre

E que o céu que nos encobre

Ainda manda nisto aqui

E ele estava a se rir

E dando gargalhadas

De cenas apresentadas

Neste fogo de conselho

Que para ele era espelho das coisas boas da vida

Pois tendo o céu por guarida

O homem aprende mais

Do que consultando em anais

De escolas construídas

Lembrou então da saída

Lá da Sede, em fila indiana

Do que fora a semana

Das muitas pioneirias

Lembrou da sua alegria

Ao fazer uma inspeção

E na hora da oração

Ele, Insígnia da Madeira

Havia há tempo compreendido

Que o muito que havia lido

Lhe valia parte então

Pois lhe valer a emoção

De ver fazer a Promessa

De um piá que começa

Nessa nossa Irmandade

E pra falar a verdade,

Embora ninguém notou,

Foi na hora da canção

Entrelaçando as mãos

Que o velho Chefe chorou

O mundo ainda não estará perdido enquanto alguém, em algum lugar, lutar pelo que é certo.

O mundo ainda não estará perdido enquanto alguém, em algum lugar, lutar pelo que é certo.

David Coimbra, jornalista

Ontem saí de casa mais cedo do que o normal, a temperatura era amena de primavera, o dia estava amarelo e azul, do som do meu carro se evolava o rock suave da Rádio Itapema e eu me sentia realmente bem. Estacionei numa rua quase bucólica do Menino Deus e vi que ali perto um catador de papel puxava sua carrocinha sem pressa.

Era magro e alto, devia andar nas franjas dos 50 anos e tinha a pele luzidia de tão negra. Ao seu lado saltitava um menino de, calculei, uns quatro anos de idade, talvez menos. Devia ser o filho dele, porque o observava com um olhar quente de admiração, como se aquele homem fosse o seu herói... Bem. Ao menos foi o que julguei, certeza não podia ter.

Já ia me afastar quando, por entre as grades da cerca de uma creche próxima, voou um brinquedo de plástico. Um desses robôs cheios de luzes e vozes, que se transformam em nave espacial e prédio de apartamentos, adorado pelas crianças de hoje em dia. Algum garoto devia ter atirado o brinquedo para cima por engano, ou fora uma gracinha sem graça de um amigo.

O menino que era dono do brinquedo colou o rosto na grade como se fosse um presidiário, angustiado. O filho do catador de papel correu até a calçada, colheu o robô do chão e não vacilou um segundo: retornou faceiro para junto do pai, o brinquedo na mão, feito um troféu.. Olhei para o menino atrás da cerca. Estranhamente, ele não falou nada, não gritou, nem reclamou. Ficou apenas olhando seu brinquedo se afastar na mão do outro, os olhos muito arregalados, a boca aberta de aflição.
Muito orgulhoso, o filhinho do catador de papéis mostrou o brinquedo ao pai. O pai olhou. E fez parar a carrocinha. Largou-a encostada ao meio-fio. Levou a mão calosa à cabeça do filho. E se agachou até que os olhos de ambos ficassem no mesmo nível.

A essa altura, eu, estacado no canteiro da rua, não conseguia me mover. Queria ver o desfecho da cena. O pai começou a falar com o menino. Falava devagar, com o olhar grave, mas não parecia nervoso. Explicava algo com paciência e seriedade. O menino abaixou a cabeça, envergonhado, e o pai ergueu-lhe o queixo com os nós do dedo indicador. Falou mais uma ou duas frases, até que o filho balançou a cabeça em concordância.

A seguir, o menino saiu correndo em direção à creche. Parou na grade, em frente ao outro garoto. Esticou o braço. E, em silêncio, devolveu-lhe o brinquedo. Voltou correndo para o pai, que lhe enviou um sorriso e levantou a carrocinha outra vez. Seguiram em frente, o pai forcejando, o filho ao lado, agora não saltitante, mas pensativo, concentrado.

Então, tive certeza: aquele olhar com que o menino observara o pai era mesmo de admiração, ele era de fato o seu herói.

Texto publicado no jornal Zero Hora de 26/09/2008